Você dorme sete, oito horas. Acorda no horário. Cumpre, no papel, tudo o que os especialistas recomendam. E, ainda assim, abre os olhos com a sensação de que a noite não fez o trabalho dela. O cansaço não foi embora, ele só mudou de lugar.
O corpo pode estar deitado, mas a mente continua de pé.
Para muitas mulheres, essa sensação começa a aparecer justamente na faixa dos 40 anos e não é acaso. É nesse período que o sono, para uma parte significativa das mulheres, começa a se comportar de um jeito diferente do que se comportava antes.
Dormir é uma função biológica. Descansar é outra coisa.
O sono não é um bloco único. Ele se organiza em fases, e cada uma cumpre uma função diferente. As fases mais profundas, incluindo o sono REM, têm papel especialmente importante na reparação física, na consolidação da memória e na regulação emocional.
Quando o sono é fragmentado por estresse, calor, despertares noturnos ou oscilações hormonais, essas fases podem ser reduzidas ou interrompidas mesmo que o número de horas na cama pareça suficiente. É esse o fenômeno que a ciência do sono chama de sono não restaurador.
Um capítulo que a maioria de nós não viu chegar

Para mulheres na faixa dos 40 e além, existe uma camada a mais nessa equação, raramente nomeada com clareza: a transição hormonal da perimenopausa e da menopausa pode afetar diretamente a qualidade do sono.
Dados citados pela Harvard Health Publishing (Harvard Medical School), com base em levantamentos do National Institutes of Health (NIH), mostram que a prevalência de distúrbios do sono varia de 16% a 42% antes da menopausa, sobe para 39% a 47% durante a perimenopausa, e pode chegar a até 60% depois da menopausa. Também, outro estudo recente do Harvard T.H. Chan School of Public Health, analisou dados de sono de milhares de mulheres através de wearables, identificou que 60% delas apresentaram aumento no tempo acordadas durante a noite nos 18 meses anteriores à última menstruação.
Em reportagem publicada pelo Harvard Health, a médica Jan Shifren, diretora do Midlife Women’s Health Center do Massachusetts General Hospital, explica que as oscilações hormonais típicas da perimenopausa podem tornar a qualidade do sono imprevisível, e que esse sono interrompido pode desencadear uma reação em cadeia, agravando outros sintomas como irritabilidade, falta de foco e alterações de humor.
No Brasil, pesquisas do Instituto do Sono (UNIFESP), conduzidas por Helena Hachul e Sergio Tufik, apontam padrão semelhante entre mulheres brasileiras na pós-menopausa, com alta prevalência de sono fragmentado. Um levantamento de 2024, em parceria com a Sociedade Brasileira do Climatério, ainda sugere que mulheres brasileiras podem apresentar sintomas vasomotores (ondas de calor) mais intensos do que mulheres de países de clima mais frio, o que é um fator que também interfere na qualidade do sono.
Isso não significa que todo sono ruim depois dos 40 seja coisa hormonal, mas pode ajudar a explicar por que algo que antes funcionava sem esforço passou a pedir mais atenção.
Os sinais de que o sono pode não estar restaurando
Alguns sinais são discretos, e por isso mesmo passam despercebidos por meses, às vezes anos:
- Acordar já cansada, como se a noite não tivesse existido
- Despertares no meio da noite que antes não aconteciam
- Sentir que o descanso do fim de semana nunca é suficiente para compensar a semana
- Dormir cedo e ainda assim acordar com a sensação de sono incompleto
Nenhum desses sinais, isoladamente, precisa ser motivo de alarme. Mas, quando aparecem juntos e se repetem com frequência, podem indicar que o corpo continua funcionando sem conseguir se recuperar plenamente.
Cabe um alerta importante sobre o cansaço persistente, que pode ter diferentes origens como: hormonais, emocionais, relacionadas aos hábitos de sono ou a outras condições de saúde. Se ele se tornar constante ou começar a interferir na qualidade de vida, procure um profissional de saúde para investigar suas causas.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação médica individual.

O que costuma interromper esse processo
Nem sempre a causa é hormonal. Alguns hábitos aparentemente pequenos, tão incorporados à rotina que já passam despercebidos, também podem prejudicar o sono e os efeitos podem se tornar ainda mais perceptíveis durante períodos de oscilação hormonal.
Entre eles estão o uso de telas pouco antes de dormir, que prolonga a exposição à luz e aos estímulos justamente no momento de desacelerar; a falta de regularidade nos horários; e a mente que continua repassando tarefas e pendências mesmo quando o corpo já está na cama.
Você pode estar descansando o corpo há anos e nunca ter descansado a mente.
Um sono que pede mais escuta, não mais culpa
Talvez o ponto central seja este: se o seu sono mudou nos últimos anos, isso não é falha sua, nem sinal de que você está fazendo algo errado. É possível que seu corpo esteja simplesmente atravessando uma fase que pede mais escuta do que costumava pedir.
Recuperar a qualidade do sono não costuma depender de uma solução única. Costuma começar por reconhecer que essa mudança existe, sem culpa, e, quando o cansaço persiste, buscar apoio profissional para entender o que está por trás dele.
Nesta semana, vale a pena observar suas próprias noites com curiosidade, sem julgamento. O que elas revelam sobre esta fase da sua vida?
Referências
Harvard Health Publishing. Menopause and insomnia: Could a low-GI diet help? health.harvard.edu, 2020.
Harvard Health Publishing. Outsmarting perimenopause. health.harvard.edu, 2025.
Harvard T.H. Chan School of Public Health. A Transition of Seasons: Sleep Patterns and Changes in Perimenopause. Apple Women’s Health Study, 2026.
Campos, H. H., Bittencourt, L. R. A., Haidar, M. A., Tufik, S., & Baracat, E. C. Prevalência de distúrbios do sono na pós-menopausa. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 27, n. 12, p. 731–736, 2005.
Agência Einstein. Um terço das mulheres brasileiras terá ondas de calor moderadas ou graves durante a menopausa. agenciaeinstein.com.br, 2024.
Nota Explicativa
National Institutes of Health (NIH) é a agência federal de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, vinculada ao Departamento de Saúde americano (HHS). É a maior financiadora de pesquisa médica do mundo, mas os dados e estudos que ela produz ou financia são, em sua maioria, baseados em populações americanas (ou em parceria com pesquisadores nos EUA).