Tem uma pergunta que, ultimamente, tenho visto aparecer em várias conversas: em rodas de amigas, em comentários de redes sociais, em relatos espontâneos de mulheres compartilhando suas próprias histórias. A pergunta é sempre parecida: o que você faria se pudesse recomeçar agora?
Essa pergunta não é hipotética para mim. Depois de anos como empresária, de ter passado por salas de aula como professora, e agora começando um projeto novo, a própria Myndra, eu sei na pele o que é sentir que ainda existe algo a ser construído, mesmo depois de já ter construído tanto.
Você não está atrasada. Você está no seu tempo.
A ideia de que “já é tarde” está sendo contestada, e com dados.
Segundo levantamento do Sebrae, o Brasil fechou o quarto trimestre de 2024 com um número recorde: 10,35 milhões de mulheres à frente de seus próprios negócios. E a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024, um dos estudos mais respeitados sobre empreendedorismo no mundo, conduzido internacionalmente por universidades como London Business School e Babson College, identificou um retorno significativo de mulheres entre 45 e 54 anos à atividade empreendedora, com destaque para negócios já estabelecidos, não apenas iniciativas recém-abertas.
Um dado que me chamou bastante atenção nesse mesmo levantamento: empreendedoras mais velhas têm 35% mais chances de manter seus negócios sustentáveis por mais de cinco anos, comparadas às mais jovens. A experiência acumulada, que às vezes a gente trata quase como um peso, aparece aqui como diferencial real.

Um movimento que também existe lá fora
Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, dados do National Women’s Business Council mostram que 26% das empresárias americanas têm 45 anos ou mais, uma proporção que vem crescendo de forma consistente nos últimos cinco anos.
Pesquisadoras que estudam transições de vida, como a psicóloga Tania Zittoun, descrevem esse tipo de movimento como parte de um processo mais amplo: sociedades e indivíduos, diante de rupturas (sejam elas escolhidas ou impostas), desenvolvem novas formas de dar sentido a esses momentos de mudança. Eu me identifico bastante com essa leitura. Recomeçar em algum ponto da vida nunca me pareceu um desvio da trajetória esperada. Sempre foi parte dela.
Por que os 40 costumam ser um ponto de virada
Existe uma combinação de fatores que percebo se repetir nos relatos dessas mulheres, no Brasil e fora dele, e que reconheço na minha própria trajetória: mais clareza sobre o que realmente importa, menos disposição para permanecer em algo que não faz mais sentido, e uma bagagem acumulada ao longo de décadas que, muitas vezes, só agora encontra espaço para se expressar de um jeito novo.
Segundo dados do IBGE/PNAD, 49,1% dos lares brasileiros têm mulheres como principais provedoras, o que também ajuda a explicar por que tantas dessas transições vêm acompanhadas de planejamento cuidadoso, e não de decisões impulsivas. Recomeçar, pela minha experiência, nunca foi sobre abandonar a responsabilidade financeira. Foi sobre reorganizá-la de um jeito que finalmente incluísse sentido.

O talento que ficou esperando
Nem toda reinvenção significa abrir um negócio ou trocar de profissão inteira. Às vezes é menor do que isso, e mais silencioso: aquela habilidade que você tem, mas raramente usa. Aquele projeto que você foi adiando “para quando desse tempo”. Aquela versão sua que sabia fazer algo bem, e que foi ficando de lado conforme a rotina foi se acomodando.
Eu passei por isso antes de começar a Myndra. E talvez a pergunta não seja “é tarde demais?”. Talvez seja: o que, especificamente, ficou esperando?
Se você desse nome a um talento seu que está parado há algum tempo (não necessariamente para agir sobre ele agora, só para nomeá-lo), qual seria?
Referências
Sebrae. Empreendedorismo Feminino — 4º trimestre de 2024. sebrae.com.br, 2024.
Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Relatório GEM 2024. gemconsortium.org, 2024.
National Women’s Business Council. Annual Report. nwbc.gov, 2024.
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua). ibge.gov.br, 2024.
Zittoun, T. et al. Midlife reinvention – turning crisis into opportunity. The Psychologist, British Psychological Society, 2025.