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Nem toda pausa é um retrocesso

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Há semanas em que tudo parece acontecer com facilidade. Você acorda cedo. Resolve pendências. Treina. Trabalha. Ainda sobra energia para começar alguma coisa nova.

Depois, sem que nada muito visível tenha acontecido, essa energia parece diminuir. E é justamente aí que muitas pessoas começam a acreditar que perderam a motivação.

Existe uma expectativa silenciosa que muitas mulheres carregam: a de que, uma vez encontrada, a motivação deveria se manter. Como se fosse possível chegar a um estado permanente de disposição e, a partir dali, nunca mais oscilar.

A realidade raramente funciona assim.

A maturidade talvez não elimine as oscilações. Ela ensina a não desistir por causa delas.

Sustentar algo por anos não exige intensidade constante.

A psicóloga Angela Duckworth, autora de Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança, passou mais de uma década estudando o que diferencia pessoas que sustentam grandes objetivos por longos períodos das que desistem no meio do caminho. Sua conclusão central surpreende: não é intensidade de sentimento que caracteriza esse grupo, é consistência ao longo do tempo. As pessoas mais perseverantes do seu estudo não relatavam paixão ardente todos os dias. Relatavam voltar ao mesmo objetivo, repetidas vezes, mesmo depois de períodos de desânimo.

Um dado da própria pesquisa de Duckworth chama atenção: os adultos com os níveis mais altos de perseverança sustentada estavam, em geral, na casa dos sessenta anos ou mais. Os menos consistentes, na casa dos vinte. Isso não significa que pessoas mais velhas tenham mais energia. Significa que, com o tempo, muitas aprendem algo precioso: não depender da energia para continuar.

Não existe apenas um ritmo

Não existe apenas o ritmo do corpo. Existe o ritmo do sono. O ritmo dos hormônios. O ritmo das estações da vida. O ritmo emocional. E quase nunca todos eles estão sincronizados.

O cronobiologista Till Roenneberg, da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, dedicou a carreira a estudar um desses ritmos: o cronotipo, a predisposição biológica que determina os horários em que o corpo naturalmente tem mais ou menos disposição, associada ao ritmo circadiano, o relógio interno de aproximadamente 24 horas que regula sono, temperatura corporal e liberação hormonal.

Roenneberg também cunhou o conceito de jetlag social, o desalinhamento entre o horário que o corpo pede e o horário que a rotina exige. Segundo dados citados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% dos brasileiros convivem com algum tipo de distúrbio do sono, boa parte ligada justamente a esse desalinhamento entre relógio biológico e relógio social.

Para mulheres na faixa dos 40 e além, existe ainda outra camada: oscilações hormonais que podem tornar picos e vales de energia menos previsíveis do que costumavam ser. Sono, hormônios, emoções e vida profissional raramente se movem no mesmo compasso, e talvez não devessem.

O que isso muda na prática

Talvez você reconheça algumas dessas fases. Há períodos em que tarefas difíceis parecem surpreendentemente leves. Outros em que manter o básico já exige bastante energia. E existem momentos curiosos em que, depois de semanas de pausa, o interesse reaparece quase sem aviso.

Nenhuma dessas fases permanece para sempre.

Voltar, mais do que manter

Talvez maturidade não seja sentir menos oscilações. Talvez seja deixar de interpretá-las como um fracasso.

Há fases de expansão. Há fases de recolhimento. Há fases de reconstrução. Nenhuma delas impede o caminho. Todas fazem parte dele.

Por isso, talvez a pergunta deixe de ser “como faço para nunca perder a motivação?” e passe a ser: “como posso voltar, quando ela inevitavelmente diminuir?”

Esse texto fecha um ciclo maior também. Nos últimos textos, a Myndra foi tentando entender, de ângulos diferentes, uma pergunta que parece simples e não é: o que nos faz continuar. Cada resposta revelou uma camada diferente dessa mesma questão:

  • O que nos move — a motivação genuína vem de dentro (autonomia, competência, pertencimento), não de recompensas externas
  • Por que a força de vontade sozinha falha — ela é um recurso finito, não uma virtude moral
  • O que ativa a ação de fato — não é sentir vontade, é o ambiente e o gatilho certo no momento certo
  • Como sustentar isso por anos — não é intensidade constante, é voltar, ciclo após ciclo, sem tratar a queda como fracasso

Entender isso não elimina os dias difíceis. Mas troca a pergunta “o que há de errado comigo?” por uma bem mais útil: “o que esse momento está me pedindo?”


Olhando para os últimos meses, em que fase do seu ciclo você sente que está hoje?


Referências
Duckworth, A. Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança. Editora Intrínseca, 2016.
Roenneberg, T. Internal Time: Chronotypes, Social Jet Lag, and Why You’re So Tired. Harvard University Press, 2012.
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Dados sobre distúrbios do sono na população brasileira, citados por Exame, 2025.

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